Segundo bissexto: por que às vezes precisamos adicionar um segundo ao relógio?
Ciência

Segundo bissexto: por que às vezes precisamos adicionar um segundo ao relógio?

Imagine que você está olhando para um relógio e, de repente, em vez de a sequência seguir normalmente de 23:59:59 para 00:00:00, aparece um segundo a mais.

Parece estranho, mas isso já aconteceu algumas vezes.

Esse segundo adicional é chamado de segundo bissexto, ou leap second em inglês. Ele foi criado para manter a escala de tempo utilizada pelos relógios muito próxima da rotação real da Terra.

A ideia parece simples, mas envolve uma diferença bastante interessante entre duas formas de medir o tempo.

De um lado, temos os relógios atômicos, extremamente precisos e capazes de medir intervalos de tempo com enorme estabilidade.

Do outro, temos a própria Terra, que gira em torno de seu eixo. O problema é que a rotação do planeta não acontece com uma velocidade perfeitamente constante.

É justamente essa pequena diferença que está por trás do segundo bissexto.

O que é um segundo bissexto?

O segundo bissexto é um segundo adicional inserido na escala de tempo UTC para manter a diferença entre o tempo atômico e a rotação da Terra dentro de determinados limites.

Em uma situação de ajuste, um minuto que normalmente teria 60 segundos pode ter 61 segundos.

A sequência poderia ser:

23:59:58
23:59:59
23:59:60
00:00:00

O horário 23:59:60 é justamente o segundo adicional.

É importante não confundir segundo bissexto com ano bissexto.

Apesar de os nomes serem parecidos, são conceitos completamente diferentes.

O ano bissexto adiciona um dia ao calendário.

O segundo bissexto adiciona um segundo à escala de tempo.

Por que precisamos adicionar um segundo?

A resposta está na rotação da Terra.

Durante muito tempo, a ideia de medir um dia estava diretamente relacionada ao movimento de rotação do planeta.

Entretanto, a Terra não gira com uma velocidade absolutamente constante.

Pequenas variações podem acontecer por causa de diversos fenômenos naturais, incluindo interações gravitacionais entre a Terra, a Lua e o Sol, além de processos que ocorrem no interior e na superfície do planeta.

Como consequência, a duração de um dia pode variar ligeiramente.

Para uma pessoa olhando para um relógio comum, essa diferença é imperceptível.

Para sistemas científicos que precisam de uma referência extremamente precisa de tempo, entretanto, essas pequenas diferenças são importantes.

Relógios atômicos são mais precisos que a rotação da Terra

A maneira moderna de medir o tempo depende de relógios atômicos.

Esses relógios utilizam propriedades extremamente estáveis dos átomos para definir e medir intervalos de tempo.

A precisão é tão grande que os relógios atômicos conseguem manter uma escala de tempo muito mais estável do que a rotação irregular da Terra.

Isso criou uma situação interessante.

A humanidade passou a ter uma forma extremamente precisa de medir o tempo, mas o planeta utilizado como referência histórica para a duração do dia não gira de maneira perfeitamente regular.

Era necessário encontrar uma maneira de manter essas duas referências próximas.

O segundo bissexto surgiu como uma solução para esse problema.

O que é UTC?

Para entender o segundo bissexto, também precisamos falar sobre o UTC, sigla para Coordinated Universal Time, ou Tempo Universal Coordenado.

O UTC é a principal referência internacional utilizada para a organização dos horários.

Os horários locais de diferentes regiões são definidos em relação ao UTC.

Por exemplo, o horário de Brasília normalmente corresponde a UTC−3.

Isso significa que o horário local de Brasília está três horas atrás do UTC.

Se o UTC marca 15h, o horário de Brasília normalmente marca 12h.

O UTC, portanto, funciona como uma referência comum para que diferentes regiões do planeta possam organizar seus horários.

E onde entra a rotação da Terra?

A escala UTC é baseada em uma combinação entre tempo atômico e ajustes relacionados à rotação da Terra.

A rotação é acompanhada por sistemas científicos que observam a posição da Terra em relação a referências astronômicas.

Essa medida é conhecida como UT1.

O UT1 está diretamente relacionado à rotação do planeta.

Como a rotação da Terra varia, o UTC e o UT1 podem começar a se afastar.

Quando essa diferença se aproxima de determinado limite, um segundo bissexto pode ser utilizado para fazer o ajuste.

A intenção é evitar que o horário dos relógios se afaste demais do tempo relacionado à rotação terrestre.

Como funciona o segundo 61?

Normalmente, um minuto possui 60 segundos.

Quando um segundo bissexto é inserido, pode ocorrer uma sequência como:

23:59:57
23:59:58
23:59:59
23:59:60
00:00:00

O segundo 60 representa o segundo adicional.

Depois dele, o relógio segue normalmente para o início do próximo dia.

Não significa que todas as pessoas precisem pegar seus relógios de parede e acrescentar manualmente um segundo.

A implementação é realizada pelos sistemas responsáveis pela disseminação e sincronização do tempo.

Em equipamentos comuns, a diferença pode passar completamente despercebida.

O segundo bissexto acontece todos os anos?

Não.

Essa é uma das características mais importantes do segundo bissexto.

Ele não acontece em uma frequência fixa.

A decisão depende da diferença observada entre o UTC e a rotação da Terra.

Como a velocidade de rotação do planeta varia de maneira irregular, não é possível simplesmente estabelecer uma regra como "um segundo a cada determinado número de anos".

O ajuste acontece quando necessário.

Historicamente, os segundos bissextos foram inseridos principalmente no final de junho ou dezembro, embora outros meses também pudessem ser utilizados dentro das regras vigentes.

Quem decide quando adicionar um segundo?

A decisão é coordenada internacionalmente pelo International Earth Rotation and Reference Systems Service, conhecido como IERS.

O IERS acompanha a rotação da Terra e publica informações relacionadas às diferenças entre as escalas de tempo.

Quando os critérios são atendidos, é anunciado um ajuste de segundo bissexto.

Essa coordenação é importante porque o horário precisa permanecer sincronizado em sistemas utilizados no mundo inteiro.

O segundo bissexto pode ser negativo?

Sim.

Embora o caso mais conhecido seja a adição de um segundo, teoricamente também é possível ocorrer o chamado segundo bissexto negativo.

Nesse caso, um segundo seria removido.

A sequência normal de 23:59:59 poderia avançar diretamente para 00:00:00, eliminando um segundo da sequência.

Isso nunca ocorreu até o momento, mas é uma possibilidade prevista pelas regras do sistema.

A necessidade de adicionar ou remover um segundo depende justamente da relação entre o UTC e a rotação da Terra.

Por que um único segundo é tão importante?

Para uma pessoa, um segundo parece insignificante.

Se você olhar para o relógio agora, provavelmente não perceberá diferença entre um horário que esteja adiantado ou atrasado em um segundo.

Mas computadores e sistemas de comunicação podem trabalhar com uma precisão muito maior.

Mercados financeiros, sistemas de navegação, telecomunicações, servidores, redes de computadores, sistemas científicos e diversas outras tecnologias dependem de referências de tempo muito precisas.

Uma diferença de um segundo pode não ter importância para uma conversa cotidiana, mas pode ser relevante para sistemas que precisam registrar eventos em uma ordem temporal exata.

O segundo bissexto pode causar problemas em computadores?

Sim.

Esse é um dos motivos pelos quais o segundo bissexto é um assunto importante na tecnologia.

Sistemas computacionais normalmente trabalham com relógios sincronizados por protocolos e serviços de tempo.

Quando aparece um horário incomum, como 23:59:60, nem todos os sistemas lidam da mesma maneira com essa situação.

Alguns softwares podem não estar preparados para representar um segundo 60.

Isso pode causar problemas em aplicações que dependem de registros temporais muito precisos.

Por esse motivo, empresas de tecnologia precisam planejar cuidadosamente como seus sistemas vão lidar com ajustes no tempo.

Como os computadores lidam com o segundo bissexto?

Existem diferentes estratégias.

Um sistema pode registrar explicitamente o segundo adicional.

Outro pode distribuir gradualmente o ajuste ao longo de determinado período, evitando uma mudança abrupta.

Essa técnica pode ser chamada de leap smearing, ou "espalhamento do segundo bissexto".

Em vez de fazer o relógio saltar diretamente para um segundo adicional, o sistema modifica levemente a velocidade do relógio durante um intervalo.

Dessa maneira, o ajuste pode ser absorvido de forma gradual.

Essa abordagem é utilizada por algumas grandes empresas de tecnologia para reduzir os impactos de mudanças bruscas.

O segundo bissexto é igual ao ano bissexto?

Não.

Essa comparação gera confusão porque os nomes são semelhantes.

O ano bissexto existe para ajustar o calendário ao período necessário para a Terra completar sua órbita ao redor do Sol.

Como um ano não possui exatamente 365 dias, periodicamente é adicionado um dia ao calendário.

Já o segundo bissexto está relacionado à diferença entre a escala de tempo atômica e a rotação da Terra.

Portanto:

Ano bissexto: adiciona um dia ao calendário.

Segundo bissexto: adiciona ou, em teoria, remove um segundo da escala de tempo.

São ajustes completamente diferentes.

Qual é a relação entre o segundo bissexto e Greenwich?

O segundo bissexto também tem relação com a história das referências internacionais de tempo.

Durante muito tempo, o tempo baseado na rotação da Terra e o chamado Greenwich Mean Time, ou GMT, tiveram papel central na organização dos horários.

Atualmente, o UTC é a principal referência internacional.

O UTC não é simplesmente o horário solar de Greenwich. Ele é uma escala de tempo moderna baseada em relógios atômicos, com ajustes que mantêm sua diferença em relação ao UT1 dentro dos limites estabelecidos.

Por isso, Greenwich continua sendo importante historicamente, mas o sistema moderno de medição do tempo é mais sofisticado.

O Brasil é afetado pelo segundo bissexto?

Como o UTC é uma referência mundial, ajustes realizados na escala UTC podem afetar sistemas que utilizam essa referência no Brasil.

Entretanto, isso não significa que o Brasil passe a ter um novo fuso horário.

O horário de Brasília continua sendo normalmente UTC−3.

Um segundo bissexto é um ajuste na escala internacional de tempo, e não uma alteração permanente na diferença entre fusos horários.

Essa distinção é importante.

Um fuso horário pode representar uma diferença de horas em relação ao UTC, enquanto um segundo bissexto representa um ajuste extremamente pequeno na própria escala UTC.

O segundo bissexto ainda será utilizado?

Essa é uma parte importante da história recente da medição do tempo.

Em 2022, a Conferência Geral de Pesos e Medidas aprovou uma resolução para trabalhar no sentido de eliminar a necessidade de segundos bissextos até ou antes de 2035.

A ideia é permitir que a diferença entre o tempo baseado em relógios atômicos e a rotação da Terra possa aumentar além dos limites atualmente utilizados, evitando a necessidade desses ajustes frequentes.

Isso não significa que a diferença entre o tempo atômico e a rotação terrestre deixará de existir.

Significa que o sistema internacional está buscando uma nova forma de lidar com essa diferença.

A implementação dessa mudança depende de decisões e trabalhos técnicos internacionais.

Por que mudar o sistema?

A principal razão está nos problemas que ajustes de um segundo podem causar em sistemas tecnológicos.

À medida que computadores, redes de comunicação e sistemas automatizados passaram a depender cada vez mais de sincronização precisa, tornou-se mais difícil lidar com um horário excepcional como 23:59:60.

Para a vida cotidiana, um segundo adicional é praticamente irrelevante.

Para sistemas globais altamente sincronizados, porém, uma alteração abrupta pode criar situações inesperadas.

Por isso, organizações internacionais passaram a discutir uma alternativa de longo prazo.

Como saber o horário exato no mundo?

Toda essa história mostra por que medir o tempo com precisão não é tão simples quanto olhar para um relógio.

Existem diferentes escalas de tempo, fusos horários e sistemas de referência.

Para descobrir o horário atual em diferentes cidades, entretanto, você não precisa entender todos esses conceitos técnicos.

Uma ferramenta de horário mundial faz essa conversão automaticamente.

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O que podemos aprender com o segundo bissexto?

O segundo bissexto é um ótimo exemplo de como algo aparentemente simples, como medir o tempo, envolve ciência e tecnologia extremamente precisas.

Para nós, um segundo é apenas uma pequena fração de um minuto.

Para os relógios atômicos e sistemas científicos, entretanto, cada segundo precisa ser definido e medido com enorme precisão.

Ao mesmo tempo, a Terra continua girando de maneira natural e ligeiramente irregular.

O segundo bissexto foi criado justamente para aproximar essas duas realidades.

De um lado, temos a precisão dos relógios atômicos.

Do outro, temos o movimento real do nosso planeta.

Enquanto essas duas referências não caminham exatamente no mesmo ritmo, é necessário decidir como lidar com a diferença.

Resumo: por que existe o segundo bissexto?

O segundo bissexto é um ajuste criado para manter o UTC próximo do tempo relacionado à rotação da Terra.

Ele existe porque os relógios atômicos são extremamente estáveis, enquanto a rotação do planeta apresenta pequenas variações.

Quando a diferença entre essas referências se aproxima do limite estabelecido, pode ser inserido um segundo adicional.

Em uma ocasião desse tipo, o relógio pode apresentar a sequência:

23:59:59 → 23:59:60 → 00:00:00

O segundo bissexto não acontece todos os anos e não deve ser confundido com o ano bissexto.

Além disso, ele não altera os fusos horários. O horário de Brasília, por exemplo, continua normalmente relacionado ao UTC−3.

Embora pareça uma mudança insignificante, o segundo adicional pode representar um desafio para sistemas computacionais que precisam trabalhar com horários extremamente precisos.

Por isso, a comunidade internacional vem discutindo alternativas para o futuro do sistema.

No fim das contas, o segundo bissexto revela algo curioso: até mesmo o tempo precisa ser constantemente comparado com o movimento da Terra para que nossos relógios continuem fazendo sentido em escala global.

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